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Artigo: Revista Veja e o segundo assassinato de Che Guevara

Jerônimo Castro
[05/10]
A revista Veja desta semana dedica sua capa a desancar Che Guevara. Nada surpreendente. Afinal, trata-se de uma revista notadamente de direita e com profundos traços reacionários. A matéria assinada por Diogo Schelp e Duda Teixeira, não satisfeita, porém, em combater Che, decidiu tripudiar e, não encontrando muitos argumentos sólidos, optou pela mentira e pela calúnia.
A Veja, então, vai além e decide tratar como um grande mérito assassinar pessoas feridas e amarradas. Eis como mataram Che Guevara na Bolívia segundo narrado pelo próprio assassino:
“(...) Algumas cervejas tinham dado novo ânimo a Teran, que voltou para a prisão de Che. À sua chegada, Guevara (amarrado pelos pulsos à frente do corpo) levantou-se e exclamou: ‘Sei por que está aqui. Estou pronto’. Teran lhe respondeu: ‘Está errado. Sente-se!’, abandonando mais uma vez o local por alguns minutos. (...) Ao ver Teran entrar de novo, o prisioneiro se levantou mais uma vez para enfrentá-lo. Teran mandou que ficasse sentado, mas Guevara respondeu: ‘Agora, quero ficar de pé’. Enfurecido, o sargento o intimou para que se sentasse. Mas Che perdeu a calma: ‘Saiba que está matando um homem’. Nessa altura, empunhando uma carabina M2, Teran o matou com uma rajada de balas, arremessando-o contra a parede do cômodo” [1].
Che foi morto por um sargento bêbado quando ele estava desarmado, ferido e indefeso. Para a revista Veja, isso é absolutamente normal e digno de nota.
Para desculpar-se por essa alegria incontida, a revista alega que Che usou os mesmos procedimentos com seus inimigos quando tomou o poder em Cuba, em 1959. Para provar, a revista entrevista exilados cubanos em Miami, com a singela desculpa de que essas são as fontes mais confiáveis no momento. Sinceramente, os exilados cubanos são conhecidos em Miami como gusanos, que significa “vermes”, não exatamente por sua imparcialidade em relação à revolução cubana.
Como esta fonte não bastava, eles decidem ouvir outra fonte “confiável”: Felix Rodriguez, cubano, agente da CIA e partícipe no assassinato de Guevara. Que classe de jornalismo é essa? E, mais importante, qual a real necessidade de seguir matando Che Guevara?
A razão é simples: com seus muitos erros e acertos, Guevara continua incomodando muito. Sua saída de Cuba, sua opção por seguir combatendo em outras terras, seu desapego aos cargos, tudo isso deu-lhe uma aura de herói romântico e abnegado que continua calando fundo na juventude e nos explorados de todo o mundo. Mesmo que a defesa da guerrilha como método de luta seja equivocada, em nossa opinião, isso não o faz menos dedicado e não exclui o fato de que ele renunciou à sua vida para combater os ricos.
O artigo da revista não passa de lixo jornalístico. O texto apresenta uma preocupação excessiva em citar as inúmeras fontes “confiáveis” – todas bem escolhidas entre os inimigos do marxismo –, mas o “esforço” não rendeu muitos fatos concretos. O texto é um amontoado de opiniões mal-embasadas, frases descontextualizadas, duas tentativas de fatos nem tão bem explicados e outros manipulados.
A revista Veja, para a infelicidade dela e de seus patrocinadores, não pode contrapor a Che quase nada, pois para fazê-lo teria de discutir a fundo a revolução cubana, seus erros e acertos, seus méritos e deméritos e, ao fazê-lo, lhe restariam poucas vantagens. Optam pelo caminho mais fácil, o da calunia sistemática. Mentem sobre os fatos e silenciam sobre as verdadeiras opiniões de Guevara.
Nisso aliás, a revista se junta a Fidel, como observa Célia Hart, filha de dois heróis da revolução, Armando Hart e Haydée Santamaria. “Fico transtornada” – escreve Célia, que vive em Havana – “com a idéia de que existam escritos inéditos do Che. Depois de tanto tempo, quem pode pretender o direito de privar-nos da primavera? Não sou uma especialista na obra de Guevara, mas me recuso a reconhecer o direito de qualquer ser humano de decidir aquilo que devo ou não devo ler do Che” [2].
Assim, não basta matar de novo o Guerrilheiro. É necessário silenciá-lo. O inquieto e inquietante guerrilheiro argentino segue, depois de morto, a incomodar os vivos, ricos e poderosos. E isso que a revista Veja quer matar.
Notas:
1. Descrição da execução de Che Guevara pelo sargento boliviano Mario Teran, segundo relatório do Exército americano de 28 de novembro de 1967.
2. Site Observatório da Imprensa, por Giulio Sanmartini, de Belluno (Itália) em 11/10/2005.
Fonte: www.pstu.org.br
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