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50 anos do Golpe Militar 27/03/2014 | 13:49

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Documentos revelam ligação de empresas do Vale com ditadura

Documentos levantados pela Comissão da Verdade dos Metalúrgicos apontam troca de informações entre empresários e militares

A poucos dias do aniversário de 50 anos do Golpe Militar de 64, a Comissão da Verdade dos Metalúrgicos apresentou documentos e depoimentos supreendentes que revelam o envolvimento de empresários na perseguição a trabalhadores do Vale do Paraíba.

Trabalhadores e lideranças sindicais emocionaram os participantes do ato que reuniu cerca de 300 pessoas na Câmara Municipal de São José dos Campos, na quarta-feira, dia 26, para relembrar e denunciar os crimes cometidos durante o regime.

Histórias de tortura, “caça às bruxas” e demissões confirmaram o que estava evidente nos papeis apresentados pela Comissão da Verdade dos Metalúrgicos. Foram 15 depoimentos e vários documentos que resgataram os anos de chumbo da ditadura militar.

A comprovação de que empresários e militares da região trocavam informações vem dos relatórios da Cecose (Centro Comunitário de Segurança do Vale do Paraíba), que trazem a descrição de atividade de dirigentes sindicais e ativistas, dentro e fora das fábricas.

Os trabalhadores que atuavam politicamente tinham seus dados compartilhados em reuniões desse órgão, que contavam com a participação de chefes de segurança, representantes de grandes empresas e militares (Aeronáutica, Exército, Polícia Militar).

Os documentos apontam que o Cecose funcionou, pelo menos, entre os anos de 1983 e 1985. Suas reuniões eram mensais e ocorriam nas dependências das fábricas que compunham o Centro ou em locais por elas providenciados. Nas reuniões os representantes das empresas relatavam as assembleias, mobilizações, panfletagens, paralisações e greves que ocorriam na região. Era frequente a troca de informações sobre militantes, ativistas e demitidos políticos, que serviam de subsídio para a elaboração das chamadas "listas sujas".

Um dos relatórios da reunião do órgão, de agosto de 1983, lista a participação de empresas como Embraer, Avibras, GM, Philips, Engesa, Petrobras, Johnson, dentre outras. Além do Cecose, a maioria dos documentos obtidos pela Comissão da Verdade dos Metalúrgicos provém de órgão da Aeronáutica (CTA e Escola de Especialistas da Aeronáutica).


Perseguição e tortura
Os primeiros depoimentos públicos de trabalhadores e ativistas da região relembram o horror e a perseguição sofridos na época.

O ex-presidente do Sindicato, Ary Russo -- integrante da chapa de oposição que venceu as eleições em 1981, tirando a entidade do controle dos pelegos -- relembrou o horror da prisão, ainda nos tempos da juventude, quando atuava em Belo Horizonte.

“Durante os 12 dias em que estive preso, fiquei mais de trinta horas pendurado no pau-de-arara, perdi 50% da audição do ouvido esquerdo, 60% do direito e todos os dentes”, relembrou emocionado. Quando saiu, ficou 45 dias internado em um hospital.

Já em São José dos Campos, teve a casa “invadida e revirada” pelos militares e foi enquadrado na Lei de Segurança Nacional, sendo condenado a seis anos de prisão, que não chegou a cumprir, já que o processo foi arquivado.

A ex-metalúrgica da Ericsson, Maria Inês de Oliveira, que hoje integra a Comissão da Verdade do Sindicato, contou sobre a perseguição psicológica que sofreu. “Participei da greve de 79 e fui demitida assim que acabou minha licença maternidade. Com a caça às bruxas, não conseguia parar em nenhum emprego. Passei necessidade, até que chegou um ponto que tive que ir embora da cidade, fiquei muito visada”, contou.

José Luiz Gonçalves, também ex-presidente do Sindicato, contou sobre o autoritarismo da GM e a presença de agentes do Serviço Nacional de Informações (SNI) na fábrica. “O comando de segurança da empresa era totalmente militarizado, não podíamos entrar na fábrica com qualquer tipo de jornal. Mesmo assim, fazíamos isso de forma clandestina”.

Ernesto Gradella, ex-vereador e ex-deputado federal, também falou sobre a articulação entre militares e empresários para perseguir trabalhadores. “Após minha demissão da Metalúrgica Fi-El, fui procurar trabalho na Engesa. Lá, me pediram atestado de antecedentes do Dops e Deic (Departamento Estadual de Investigação Criminal). Por sorte consegui entrar. Comecei a trabalhar na segunda-feira e, na sexta, fui demitido porque descobriram quem eu era”, contou, referindo-se à presença de seu nome na “lista suja” que circulava entre as empresas.

O ex-condutor da Viação São Bento, José Dias Campos falou sobre uma dentre tantas mobilizações das décadas de 70 e 80, por melhores condições de trabalho e contra o aumento do custo de vida. “Organizamos uma greve pelo direito de ir ao banheiro e não pagar pelos assaltos aos veículos das empresas em que trabalhávamos. Por conta disso, sofremos intervenção no Sindicato”. Na época, o Sindicato dos Condutores foi um dos primeiros do Vale a sofrer intervenção direta do Ministério do Trabalho, com todos os membros da diretoria afastados.

As denúncias serão encaminhadas à Comissão Nacional da Verdade. A próxima rodada de depoimentos da Comissão da Verdade dos Metalúrgicos acontece no dia 2.

Ato unitário
Na parte da manhã, um ato unitário reuniu sindicalistas, autoridades e anistiados políticos da região para exigir justiça aos perseguidos pelo regime.

A mesa do ato foi composta pela presidente da Câmara, a vereadora Amélia Naomi; o prefeito Carlinhos Almeida; os representantes da Comissão da Verdade Nacional (CNV), Sebastião Neto, e da estadual, Rafael Martinelli; Antônio Donizete da Comissão da Verdade dos Metalúrgicos de São José dos Campos; Luiz Carlos Prates, o Mancha, em nome da CSP-Conlutas; além de representantes de outras centrais como Intersindical, CUT, Força Sindical e UGT.

Fotos: Claudio Vieira

 

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