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Edição 64 | Outubro de 2011

Povo nas ruas

Crise econômica e mobilizações sacodem a Europa

Depois de despejarem trilhões de dólares para salvar bancos e empresas, governos estão à beira da falência e querem jogar a conta aos trabalhadores

Falar da Europa, em geral, era falar da rica cultura, arquitetura, belas cidades, do Estado de “bem estar social”, que garantia aos europeus um alto padrão de vida, com educação, saúde e moradia de qualidade. Atualmente, entretanto, o velho continente tem se destacado pelos dramáticos efeitos da crise econômica mundial.

A região vive hoje uma situação nunca imaginada, com países como Grécia, Espanha, Irlanda, Portugal, Itália e Alemanha à beira da recessão e, em alguns casos, da falência.

As consequências são dramáticas: desemprego, piora nos serviços públicos e governos à beira do calote.

Déficit e desemprego - Para se ter uma ideia da dimensão da crise, dados do Eurostat (Gabinete de Estatísticas da União Europeia) apontam que a dívida pública da Grécia atinge hoje 180% do PIB (Produto Interno Bruto) do país e seu déficit público fica próximo de 15% do PIB.

Na Espanha, a situação é semelhante. Sua dívida pública é de 63% do PIB e o país registra a pior taxa de desemprego de toda a Europa. Mais de 20% da população está desempregada e, entre os jovens, essa taxa fica próxima de 45%.

Os dados apontam uma situação assustadora também em outros países: a dívida pública alcança 76,5% na Inglaterra, 81,7% na França, 93% em Portugal, 114% na Irlanda e 120% na Itália.

Até mesmo a Alemanha, maior economia da zona do euro e símbolo de uma suposta política econômica eficiente, fechou os últimos dois anos com déficit público de 3%. A situação só não é pior porque a economia alemã se sustenta através da exploração dos países menos desenvolvidos da região.

Isso ocorre porque, mesmo dentro da União Europeia, existem países com grandes diferenças no desenvolvimento econômico e produtivo.

As grandes potências como Alemanha e França deixaram países como Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha ainda mais desindustrializados e os forçaram a competir com agricultores e empresas de seus países, que contam com grandes subsídios governamentais. A atual crise econômica agravou ainda mais esse quadro de desigualdade.

Falência dos Estados - A crise internacional, que explodiu em 2008, tem sido considerada a mais grave desde a depressão de 1929. Num primeiro momento, em todo o mundo, os governos responderam a ela despejando trilhões de dólares nos mercados financeiros.

Oficialmente, cerca de 25 trilhões de dólares de dinheiro público foram usados para salvar empresas e bancos e evitar a queda em seus lucros. Mas o número real pode ser de até 50 trilhões de dólares, ou seja, quase todo o PIB mundial, que é de 63 trilhões de dólares.

Alejandro Iturbe, editor da Revista Correio Internacional, explica que se num primeiro momento isso evitou uma depressão, numa segunda etapa causou uma grave crise fiscal, que é o que se vê principalmente na Europa atualmente.

“A resposta financeira dos Estados vai mostrando seu limite, ao mesmo tempo em que cobra seu preço na Europa. E, como saída, os governos, mais uma vez, jogam essa crise nas costas dos trabalhadores, através de cortes e reformas”, disse.

Agora, os governantes tentam convencer o mundo de que a única saída para a crise são os planos de austeridade. Mas, para Iturbe, só há duas saídas para a situação atual da Europa e do restante no mundo.

“A saída que os governos e capitalistas tentam implementar é aumentar a exploração dos trabalhadores para aumentar os lucros das empresas e especuladores”, disse Iturbe.

“A outra saída é que as manifestações dos trabalhadores e da juventude em todo o mundo continuem combatendo essa saída capitalista e avancem para o socialismo”, defendeu.


Manifestantes dizem: essa crise não é nossa!

Manifestações com milhares de pessoas. Esse é o cenário que também vêm da Europa nos últimos tempos. Nos gritos, faixas, bandeiras e cartazes, as palavras de ordem expressam um único sentido: “essa crise não é nossa; que os capitalistas paguem pela crise que criaram”. Pode-se dizer que desde as grandes manifestações do Maio de 68 não se viam gigantescas mobilizações como as que ocorrem agora. Principalmente, com unidade e acontecendo ao mesmo tempo.

A juventude que não vê perspectivas para o futuro é linha de frente na maioria dos protestos. Mas trabalhadores, aposentados, desempregados, imigrantes e donas de casa também estão presentes. Os movimentos têm sido chamados de os “Indignados”.

Na Grécia, os trabalhadores já realizaram mais de dez greves gerais, além de centenas de protestos que chegaram a reunir mais de 80 mil manifestantes na praça Syntagma e nas ruas de Atenas.

Os indignados da Espanha também têm realizado fortes lutas contra os pacotes de austeridade e mais de 150 mil pessoas saíram às ruas de Madri para protestar e dizer não aos ataques. O movimento 15-M (em referência à data de seu nascimento, em 15 de maio), reuniu milhares de manifestantes na Praça Puerta del Sol pedindo “Democracia Real Já”, pois não puderam dar sua opinião sobre os planos de austeridade.

Os portugueses da chamada “Geração à Rasca”, termo utilizado para designar uma juventude sem emprego, nem perspectivas de melhoras, realizou grandes manifestações com mais de 200 mil pessoas em Lisboa e 80 mil no Porto. As manifestações levaram o primeiro-ministro José Sócrates a se demitir em março.

Em agosto, o assassinato de um jovem negro pela polícia de Londres também deu origem a uma onda de protestos, dando vazão a um ódio acumulado por anos de repressão policial, discriminação e pobreza que se agravou com a crise econômica. Os protestos em Londres são muito parecidos com a revolta dos jovens no subúrbio de Paris em 2005, que também começou após o assassinato de dois jovens negros.

Até mesmo na Itália, terceira maior economia da zona do Euro, grandes manifestações já aconteceram exigindo a saída do primeiro-ministro Silvio Berlusconi e contra as medidas de austeridade anunciadas por seu governo, em setembro.

“Isso mostra que os trabalhadores da Europa já aprenderam que o único caminho para barrar os graves ataques da burguesia é ir às ruas”, afirma Alejandro Iturbe.

“A situação é mais avançada na Europa pela tradição de luta e pela força dos ataques aos trabalhadores. Na Grécia, em que os ataques foram mais fortes, há mais manifestações, enquanto na Alemanha, a reação ainda é pequena. Mas isso pode se espalhar no futuro”, conclui Iturbe.


Pacotes de ajustes agravam situação

A solução que os países da Europa têm utilizado para tentar conter os problemas que a crise econômica mundial causa são os chamados Pacotes de Austeridade. Uma série de medidas que retiram os direitos dos trabalhadores e atacam setores sociais como Previdência, Saúde, Segurança e Educação. São ataques fortíssimos que aumentam a idade da aposentadoria e impostos, privatiza e corta gastos de áreas sociais, num brutal desmonte do Estado de Bem Estar Social europeu.

Para receber a liberação da ajuda do FMI (Fundo Monetário Internacional) e BCE (Banco Central Europeu), somente na Grécia, já foram aplicados dois desses planos. O primeiro empréstimo foi liberado em maio de 2010, no valor de 109 bilhões de euros e o segundo, em julho de 2011, no valor de 110 bilhões de euros.

Outros países também tiveram seus empréstimos. A Irlanda recebeu um resgate de 85 bilhões de euros. Em junho de 2011, foi a vez de Portugal receber 78 bilhões de euros.

Mas, como condição, os países foram obrigados a implementar violentos pacotes de austeridade. Na Grécia, os cortes até agora foram de 58 bilhões de euros; na Itália (133 bilhões de euros); Portugal (corte de 5% nos salários dos servidores e aumento de impostos); Irlanda (15 bilhões de euros) e Espanha (mais de 20 bilhões de euros).

Segundo o economista espanhol Felipe Alegria, longe de amenizar a crise, esses empréstimos e a implementação dos pacotes de austeridade acabam acelerando-a.

“O governo grego usou os pacotes de austeridade para retirar dinheiro do povo e entregá-lo aos grandes bancos, que emprestaram dinheiro ao governo para quitar suas dívidas”, analisa Alegria. “Essa espiral aumenta cada vez mais a dívida até que se torne impossível pagá-la”, conclui.

Expediente

Órgão informativo do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos, Caçapava, Jacareí, Santa Branca e Igaratá. Rua Maurício Diamante, 65 - CEP: 12209-570 - Tel.: (12) 3946.5333 - Fax: (12) 3922.4775, São José dos Campos (SP). Site: www.sindmetalsjc.org.br. E-mail: comunicacao@sindmetalsjc.org.br - Presidente do Sindicato: Vivaldo Moreira Araújo - Diretoria Executiva: Herbert Claros da Silva, Adilson dos Santos, Luiz Carlos Prates, José Gonçalves Mendonça, José Donizetti de Almeida - Diretoria Efetiva: Adilson Carlos do Prado, Ananias Francisco Santos, André Luis Gonçalves, Antonio Ferreira de Barros, Camilo Lélis Lopes, Célio Eduardo Silveira, Clóvis Fernandes de Sousa, Edson Alves Cruz, Eduardo de O. S. Carneiro, Eliane dos Santos, Geraldo de Jesus Santos, Ivan Cardoso de Souza, Jésu Donizetti de Souza, João Batista Arruda, José Francisco Sales, Keila Mendes Costa, Luciano de Oliveira Valle, Luciano Macedo César, Renato Bento Luiz, Rilma Maria da Silva, Rinaldo Fernando Silveira, Rogério Willians de Oliveira, Sebastião Francisco Ribeiro, Silvio Peninck de Oliveira, Valdir Martins de Souza, Valmir Diniz Ferreira, Vinícius Faria - Conselho Fiscal: Edmir Marcolino da Silva, José Dantas Sobrinho, Lauro Claudino Nunes, Ademir Tavares da Paixão, José Carlos de Lima, Rosângela de Souza Calzavara - Responsabilidade da publicação: Diretoria do Sindicato - Edição: Ana Cristina da Silva. Redação: Douglas Dias, Eliane Mendonça, Rodrigo Correia, Shirley Rodrigues - Editoração Eletrônica e Ilustração: Bruno César Galvão Impressão: Jornal Diário da Região - CNPJ 07.351.093/0001-48

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